domingo, 6 de dezembro de 2009

GLÓRIA TRÍPTICO 2


GLÓRIA TRÍPTICO 1


FOTOGRAFIA COMO EXPERIÊNCIA URBANA - ESTUDOS RUA DA GLÓRIA

Como vivenciar nosso cotidiano? Como expressar em imagens, sensações e impressões que nos atravessam - oriundos desse grande ser que é uma metrópole? 
Onde estamos nós? Onde estão os Outros? Existem Outros ou fazemos parte todos, em um fluxo vivo e contínuo, dando vida e movimentando o sangue luminoso - dos faróis vermelhos dos carros, dos sinais que se ascendem e se apagam - desse gigante que é a Urbis? Ele nos engoliu? Por isso estamos tão cegos ao que nos cerca?


Porque não reaprender a olhar - ou reaprender a perceber, a sentir, a viver? No exercício de tornar visível o que nos escapa todos os dias, a beleza infinita que reside em tempos vazios, fragmentos de subjetividades se materializam no imperativo de voltar a respirar. Parece que nunca realmente estamos em lugar algum.


Como flaneur praticante há muitos anos e assídua freqüentadora das ruas da Glória, um trecho sempre me pareceu particularmente especial: o que compreende a esquina da sala Cecília Meireles até a boa e velha padaria Santo Amaro, com seu cafezinho amargo 24 horas disponível à taxistas, borboletas da noite e insônamos convictos.


Tenho a impressão que ali, nesse caminho onde vemos mais sombra do que luz, houve uma ruptura: entre a aparente insanidade e miséria daqueles que vendem quinquilharias na rua, transeuntes que meteorizam imersos em suas buscas pessoais e as árvores que tudo observam, altivas e pacientes, outro tempo é vivenciado.


Não é meu tempo, eu apenas passo, como se entrando em outra dimensão: entre tantos ruídos urbanos, a impressão que tenho é que ali existe uma predisposição sincera para o silêncio.


Em um gesto sem eco, um olhar no vazio, uma luz que banha carinhosa, a imensa  solidão de uma rua ou o sem-fim de um céu que tudo vê: todos esses elementos coexistindo naquele lugar. Meu mundo pode penetrar e ser penetrado.


Trazer à luz alguns fragmentos de mundos que coexistem naquele lugar: essa é a minha pretensão.